terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Escrevendo um Romance 9ª Parte


CAVALEIROS E EXORCISTAS

 ©2011 Paulo Af.
Esta obra é uma ficção, não tem dados históricos oficiais reais e todos os personagens são fictícios, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 ATILA E A MORTE DA MEDUSA

Passaram-se vários meses e Aquiles ainda continuava com Yara perpassando a sua alma. Não comia e nem mesmo dormia há dias. Passava todo o tempo olhando para o nada. Michelangelo e os outros começaram a ficar preocupados com seu líder. Bonelli chegou inclusive a temer que Aquiles poderia atentar contra a própria vida naquelas condições.
O pajé guarani dizia que com algumas ervas poderia espantar o espírito que pesava sobre os ombros do monsenhor. De certa forma Vossa Santidade, como homem de Deus e de formação filosófica e teológica, pensa como eu ser uma bobagem que uma simples erva consiga tal feito.
Mas nas condições que estávamos podíamos recorrer a qualquer coisa para recuperar o animo perdido de nosso líder. Enrico se predispôs a ajudar no que fosse possível. O pajé indicou umas ervas de cor avermelhadas que podiam ser colhidas bem perto da cascata próxima a aldeia.
Na mesma hora lembrei-me e disse para Enrico que foi ali que Aquiles viu a rainha das águas. Adverti que ele deveria ter cuidado, pois poderia ser enfeitiçado assim como o nosso mestre fora. Enrico logo declinou e desistiu de ir a traz da erva. Coube a eu fazer isto, além do mais, no fundo do meu intimo eu queria ver de perto tal divindade.
À tarde fui na cascata e ali peguei as benditas ervas que o velho pajé guarani dissera que estariam. Também, vi o lugar descrito por Aquiles e não vi nada que transparecesse magia ou qualquer estranhamento.
Notei somente que a água do rio era cristalina e refletia a luz da lua. Olhei para a margem e vi meu reflexo na água tão bem quanto se estivesse mirando um espelho. Na mesma hora temi ficar hipnotizado com tal reflexo e como o mito de Narciso morrer afogado de tanto se admirar.
Com as ervas em poder resolvi logo voltar para a aldeia lembrei-me da face distanciada de Aquiles e fiquei com medo de travar olhar com Yara. De repente bolhas começaram a emergir na superfície do rio. Ondulações apareceram como se alguém tivesse jogado uma pedra na água. O vento começou a soprar violentamente e um som como de melodia de flauta chegou aos meus ouvidos.
Agarrei-me ao terço que levo na cintura e pedi que Nossa Senhora mandasse um anjo para me defender, já que nem espada eu tinha. Um tufão apareceu na margem e em seguida dentro dele uma silhueta que foi ficando mais nítida. A estranha silhueta era humana para os meus olhos. A forma era de uma mulher que estava na água portando uma coroa e lindos olhos azuis. Só poderia ser Yara (pensei comigo mesmo).
Ela foi chegando mais perto da margem, até que eu percebi que o seu dorso era de peixe no lugar das pernas. Na hora a cena me deu medo e a vontade de correr foi enorme. Porém, algo disse para o meu intimo para que eu ficasse.
Yara, a rainha das águas, a deusa dos nativos começou a falar comigo:
-         Francisco não tenha medo de mim. Não quero lhe fazer mal. Quero falar contigo!
Fiquei como uma planta. Estático e sem saber o que fazer. Em seguida tomei coragem e respondi a ela:
-         Tu és a deusa dos nativos. O que quer de mim, eu um seguidor de outro Deus? Deseja de mim alguma oferenda?
-         Não quero oferenda tua, pois não é meu seguidor. Sei que teu Deus-homem é a sua força de vida. Quero saber onde estas Aquiles?
-         O que quer com o monsenhor Aquiles? Já não basta o que fez tirando-lhe o sono e deixando ele sentir desejo carnal por ti?!
-         Não fui eu que lhe aticei o desejo e o amor. Foram as suas leis de não sentir prazer que fizeram isto! Se ele amasse, não teria tanta aflição no coração agora!
Como ela poderia dizer tal coisa de meu mestre. Ele é um homem de Deus! E o amor é a nossa lei. Fiquei confuso e depois enfurecido com vil parecer repliquei a deusa dos nativos:
-         O meu mestre abriu mão dos prazeres do mundo para abraçar a Cristo! Não é fácil viver entre dois mundos. Tu és divindade está acima do bem e do mal. Não sentes solidão e nem frio e calor. Tua energia é suprema!
A sereia então passou a mão nos cabelos negros que ostenta e voltou a falar:
-         Vou lhe contar algo que ilustra o amor: Um dia, um cavaleiro de nome Atila veio até a mim, como Aquiles. Ele disse que queria a paz e que estava cansado de empunhar sua espada encharcada de sangue de homens, mulheres e crianças. Senti pena de sua humanidade e de sua contradição. Pela primeira vez entendi porque nós divindades criamos os homens: o homem ama e sofre e isto basta para coloca-lo acima de outras criaturas. Algum tempo depois Atila começou a me visitar constantemente. Todo dia ele deixava um girassol na margem para eu enfeitar meus cabelos. Certa noite, ele chegou com sua armadura brilhante e pensando em me ver perfumou-se todo. Mal sabia ele porem, que quem estava na margem do rio era a mãe da grande Jibóia: metade mulher, metade cobra e com asas de abutre. Ela sustentava na cabeleira um serpentário e veio até Atila para devora-lo. Em reação a seu ataque Atila lutou com ela a noite inteira. Eles batalharam no rio e somente depois que Atila atravessou o coração dela com sua espada pelas costas a mulher cobra tombou!

Ouvi a historia e por um momento torci pela coragem de Atila e o admirei. A sereia continuou seu relato heróico:
-         Quando cheguei vi Atila todo ferido pela luta deitado na margem do rio. Nadei até ele e vi que a seu lado a mãe da jibóia estava sem vida. Na hora chorei por ela, pois, como eu ela fazia parte da mata e não merecia tal destino. Depois resolvi acolher Atila e com os meus beijos em seus lábios devolvi-lhe a vida que estava quase perdida. A paixão me fez aceitar a sua humanidade, mas não os seus erros. Pedi a ele que fosse embora e nunca mais me visitasse. Nunca mais eu o beijaria novamente. Ele se foi e depois soube que ele resolveu recolher o corpo da mãe jibóia e expor-la como troféu para os seus consortes.
A sereia ficou em silêncio. Senti o peso do amor que ela sentia por Atila e percebi que mesmo os deuses podem ter pecados do homem no coração. Depois de ouvir Yara resolvi partir, mas ela disse que Aquiles deveria se restabelecer, pois queria falar com ele rápido. Eu entendi e levei as ervas para curar o meu mestre.

  

sábado, 17 de dezembro de 2011

Mensagem Subliminar: Diga o que tu vês e ti direis quem és


O olho é nossa porta para a alma já diziam os poetas românticos. A verdade é que somos guiados pela visão em quase tudo em nossa vida (podemos contar com os outros sentidos, mas o olho parece em nós o sentido mais dominante). Por isto resolvi fazer esta postagem em homenagem aos que se colocam a estudar o fenômeno da mensagem subliminar.
     
Logo de inicio me coloco totalmente contra a crença de tal fenômeno. Me lembro que quando eu era estudante eu tinha um grupo de amigos na escola que adoravam conversar sobre este tema. Geralmente era comum eles conversarem sobre o emblema da Coca-Cola onde supostamente aparecia a imagem do Diabo ou os desenhos da Disney com suas mensagens eróticas embutidas para as crianças.

Alguns deste amigos eram extremamente religiosos e passavam uma boa parte do tempo em tentar provar que o Diabo aparecia de forma sutil em objetos do cotidiano. Quem nunca ouviu a historia de que as músicas da Xuxa de trás para frente eram mensagens do demônio? Ou que a música 'Guerra dos Meninos' do Roberto Carlos era uma mensagem de exaltação as forças do mal?
Resolvi brincar com o assunto e fui ver uns cartazes de filmes que supostamente teriam as tais mensagens subliminares. Olhei para o cartaz do filme 'Amizade Colorida', um filme de comédia romantica estrelado pelo cantor Justin Timberlake. Na foto ele e a atriz fazem um gesto que para os amantes da mensagem subliminar seria de apelo sexual: com o dedo indicador ele aponta para a mão da atriz que faz um gesto de Ok. para muitos eles poderiam estar sugerindo o ato sexual em si.

Na internet aparece um monte de 'estudiosos' do assunto que procuram analizar letras de músicas de artistas como Hihanna ou Lady Gaga, dizendo que alí possuem mensagens demoniacas (com toda a certeza as músicas delas são ruins, contudo é exagero dizer que são do demônio). Outros analizam imagens de propagandas de cerveja ( cá entre nós, já é notorio o apelo sexual nestas propagandas e por isto, não são nada sutis para precisarem de mensagem subliminar).
Os primeiros estudos de mensagem subliminar surgiram em 1976 por um curioso chamado Wilson Bryan Key, para ele as mensagens subliminares são um meio de comunicar algo que não é percebido de imediato pelo nosso cerebro, mas assim mesmo fica registrado em nosso inconsciente. O primeiro, dizem, a usar a mensagem subliminar foi James M. Vicary em 1957 para uma propaganda usada em um cinema em uma pequena cidade dos EUA.

Eu particularmente sou adepto da seguinte frase de Freud: ' as vezes um cachimbo na boca de um homem é somente um cachimbo e nada mais.'. Em outras palavras, nem sempre podemos fazer a analise de uma imagem já pressupondo o que ela diz corresponder. As pinturas anamorficas estão aí para provar isso. É preciso que o autor da obra esteja realmente disposto a expor uma mensagem de cunho oculto e não a imaginação de quem a vê.
Quando varias pessoas olham para o céu e admiram as nuvens, cada um pode ver a figura que a nuvem forma de acordo com a sua imaginação ( a nuvem continuará a ser uma nuvem é a nossa mente que diz que ela se parece com uma casa ou um homem...). Qualquer pessoa que tenha um conhecimento básico de semiótica e semiologia vai chegar na mesma conclusão. Na época das vanguardas os Dadaistas e Surrealistas já brincavam com a capacidade do cerebro de gerar imagens que vinham do inconsciente. Freud com seus estudos sobre os sonhos também analizava os medos e os desejos incontidos do homem que apareciam na forma de imagens. Quando Sausurre e Pierce vieram com os estudos de semiótica e semiologia desbravaram a capacidade humana de criar símbolos e imagens.
  
Se juntarmos tudo isto podemos entender que as mensagens subliminares são muito mais um processo de quem vê a imagem do que quem a cria. Para propor um debate exponho alguns livros que poderão servir de estudo: Arte e Ilusão de E. H. Gombrich, Os 100 Maiores Misterios do Mundo de Stephen J. Spinesi, A Pintura Como Arte de Richard Wollhem e Realismo, Racionalismo e Surrealismo (arte no entre guerras) Briony Feg, David Batchelor e Paul Wood; A Interpretação dos Sonhos de Sigmund Freud.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Oscar Niemeyer: A fluidez da arquitetura


Ontem dia 15 de dezembro de 2011, Oscar Niemeyer fez 104 anos. Considerado pelos estudiosos da arte e da arquitetura como o ultimo símbolo da Arte Moderna, Niemeyer consolidou o que na Europa estava substituindo a Art Nouveau que imperava até então nas construções francesas, inglesas e italianas.
Se nos EUA os grandes arranhacéus já eram considerados o máximo da construção, coube a Le Corbusier e seus pupilos (incluindo aí o próprio Niemeyer) dar a arquitetura moderna um toque organico e menos minimalista.
   
Niemeyer começou a sua gloriosa carreira ao ser contratado por Lúcio Costa para montar uma equipe ( que incluia Bruno Giorgi, Burle Max) para a concepção do predio do Ministerio da Educação e Saúde em 1936. O grupo teve a ajuda do proprio Le Corbusier que influenciaria Niemeyer.

Depois deste trabalho o grupo ficaria notório na então incipiente arquitetura brasileira. Em 1950, o grupo é novamente recrutado para trabalhar em um projeto muito ousado até então: transformar um local deserto no meio do centro-oeste na capital federal.
Brasilia nasceu, da visão (hoje bastante mitica) de Dom Bosco e das ideias politicas de Jucelino Kubitschek. Lucio Costa desenhou a forma de passaro que a cidade teria, porém os cartões postais como O Congresso Nacional e o complexo cultural coube a Niemeyer.

A sua visão de arte menos minimalista ( os predios modernos até então tinham somente o formato caixa como padrão) e o uso engenhoso de grandes vidros e linhas sinuosas que davam ar orgânico as obras fez com que a arquitetura de Niemeyer fosse além do esperado.
  
Suas ultimas obras em Brasilia ( O Museu Nacional e a Torre Digital) mostram que a idade apenas contribuiram para uma criação cada vez mais inserida com o ambiente/homem e menos mecânica e seca como a arte moderna do inicio. Muitos podem até dizer que suas obras são extremamente esteticas e pouco funcionais, contudo não há como se desviar de obras que são sem muros e de puro convite para os olhos do transiunte que caminha por Brasilia.
  

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Guerra de Audiência: A crise da TV brasileira

     


Estamos no inicio das ferias de fim de ano. Os alunos que conseguiram fechar as suas notas já não se preocupam mais com os livros e deveres de casa. Muitos trabalhadores já pegaram o 13º salario e compraram os presentes de Natal dos seus familiares. Outros tantos irão viajar e conhecer ou 'matar a saudade' de lugares legais. Se você não se encaixar em nenhum desses momentos que citei agora, não se preocupe, tente curtir as ferias assim mesmo. A vida da gente não é como uma propaganda de banco ou de shopping center onde você vai ouvir no fundo aquela musica natalina (quero ver você não chorar, nem se arrepender do que faz... lembra dessa!?).
É deste ponto que eu digo aos que vão ficar em casa nas ferias. Procurem coisas legais como cursos ou iniciar um hobby e por favor não assista a televisão! Recentimente resolvi assistir a programação de algumas emissoras da TV aberta. Faz tempo que eu não fazia isso, pois o trabalho e a vida corrida não permite tal coisa. Então fui assistir a TV... Houve uma época em que eu era viciado em televisão. Me lembro que passava horas na frente da telinha (foi a época também em que tirei as notas mais baixas da escola e que não saia com as minas).
    
Pois bem, comecei a apreciar os programas da manhã e vi que até o meio-dia o que rolava era cenas de tiroteio e desgraça na Tv Record e cenas de culinaria com Ana Maria Braga na Globo. No SBT, passava alguns desenhos legais mais inumeras vezes reprisados que não surpreendiam mais ninguem. Depois fui almoçar e saborear um programa que passa numa rede local em que um cara esbravejava sobre uma vitima de tiroteio (ué ! isto também passou na Record).
    
Do meio-dia até as três da tarde o tema entre as emissoras eram: tiroteio, morte, tiroteio (não exatamente nesta ordem). No vacuo da programação ainda tinha o Video Show (cada vez mais insuportavel) e o Vale Apena Ver de Novo ( Ruthe cade a Raquel ?). No SBT, o homem do baú tirava do mofo a Maria do Bairro...
   
No inicio da noite fiquei em um duvida de ver Rebelde (versão ruim de algo que era pior no original) e a sempre ruim Malhação. Depois veio o Jornal Nacional, Jornal da Band, Jornal da Record (da lhe jornal!). No fim da noite alguns filmes que ja vi pirateado e algumas emissoras que mostram uns religiosos prometendo o Céu e curas milagrosas com copo d'água, jejum do desemprego, corrente do desesperado e etc.
 Depois disso tudo fui dormir e esperar o dia para começar tudo de novo. Não é a toa que a Rede Globo hoje já não consegue ter 50% do ibope do passado e que emissoras ruins como a Record ganham popularidade: A Tv aberta esta moribunda e o que salva o individuo hoje em dia é a Internet e as Tv's a cabo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sessão Comédia: Os Trapalhões e o humor brasileiro


Com a onda cada vez mais forte do Stand up comedy no Brasil, vale apena a gente tentar mapear uma trajetoria do nosso humor atual pegando carona nos antigos mestres. Eu poderia relatar nesta postagem muita coisa boa desde Grande Otelo e as chanchadas da Atlântida ( que somente conheci quando foram exibidas na TV Nacional alguns anos atrás) ou dos grandes da década de 70 e 80 como Chico Anysio e Jô Soares.
Resolvi buscar na minha infância e pré-adolescencia o programa  e os filmes dos Trapalhões, que com certeza marcou a vida de muita gente que está hoje na casa dos trinta e poucos anos... Longe do que parece datado o Programa do Didi, os Trapalhões eram a hironia, e a irreverencia sobre o Brasil de um modo bem peculiar.

Acho muito dificil que nos dias do politicamente correto de hoje, as piadas de cor sobre o Mussum ou os apelidos aos aspectos avantajados da cabeça do Didi Mocó, não seriam vistos como propagadores de racismo e preconceito sobre as minorias.
E olha que os Trapalhões eram muito mais sutis do que o humor exagerado do Panico! ou dos comentarios infelizes do Rafinha Bastos do CQC. Ao contrario de hoje em que existe a confusão entre constranger e fazer rir, os programas e filmes dos Trapalhões eram ao mesmo tempo infantis e criticos de um modo em que a agressão pela agressão não era motivo de riso.
    
Não quero tirar a o merito da analise que os programas atuais fazem das celebridades e de muitas de suas atitudes futeis (é bom ter um espelho e analisar certos comportamentos que muitos famosos tem e que por serem pessoas publicas deveriam ser mais comedidos). Por outro lado as vezes cansa você assistir a momentos em que o constrangimento parece engolir a piada e tudo acaba caindo nas velhas imagens de video cassetadas e coisas piores.

Se no passado os Trapalhões entraram para o Guiness Book, por ser o programa de humor mais longevo da TV é porque os caras sabiam trabalhar bem o humor, que analisando o racismo embotido em muitas piadas como até hoje faz os contadores de anedotas, eles apenas mostravam como reflexo a imagem que o brasileiro tinha de si mesmo naquela época.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Escrevendo um romance VIII: 8ª Parte

CAVALEIROS E EXORCISTAS


©2011 Paulo Af.
Esta obra é uma ficção, não tem dados históricos oficiais reais e todos os personagens são fictícios, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


A VISITA DO DIABO

Aquiles ficou muito estranho após o encontro com a rainha das águas. Passou dias indo as cascatas esperando encontra-la. Mesmo com toda à vontade de vê-la nada de bom acontecia nas águas brilhantes do rio. Pensou em ir a aldeia das amazonas e pedir a Diana uma audiência com a sereia. Depois, mudou de pensamento, pois, sabia que as amazonas já não estavam tão receptivas como antes.
Um dia ele me procurou aflito, estava com os olhos sobressaltados e com a respiração ofegante. Pediu para que eu ler para ele o evangelho na qual Jesus expulsa um demônio de um possesso e o lança a uma vara de porcos que se jogaram em um despenhadeiro. Em seguida pediu que eu rezasse com ele umas dez ave-marias e vinte padre-nossos. Realizamos tudo e só assim ele conseguiu calma.
Depois resolveu contar o motivo de tanta aflição e medo. Peguei um papel e uma pena e coloquei-me a escrever:
-         Estava dormindo quando o nome de Yara me veio a mente. Desejei que Deus tirasse o nome dela de minha boca. Porém, quanto mais eu orava mais a imagem da sereia aparecia nítida como um espelho em meu pensamento. Tentei esquece-la pensando em outras coisas, como as nossas batalhas aqui e em Jerusalém. Contudo, do nada me veio perfume da sereia em minhas narinas e os seus olhos azuis aparecem no espaço como ametistas de um rajá. Dormi imaginando os seus seios volumosos por baixo das velhas conchas que os cobriam e pensei em estar acariciando o seu ventre delgado. O perfume parecia mais forte e tinha a impressão que sua voz suave estava entrando em meus ouvidos junto com o zumbido do vento frio da noite. O meu corpo ficou retesado e meu quadril fez um movimento de retenção. Percebi que estava me entregando ao prazer carnal! Não sabe irmão o quanto para nós homens celibatários é complexo e doloroso cortar a raiz do mal do desejo! A vontade pela Luxuria! Quanto mais o meu órgão fálico ficava reto, mais eu sentia que Yara estava comigo. Eu sentia que a tocava e mesmo que não a vendo com os olhos carnais a enxergava com os olhos d’alma. Por quanto tempo eu não jorraria o liquido da vida com tanto libido guardada? Poderia um homem de fé como eu agüentar ao prazer? Por muitos anos me guardei, nunca sequer tentei olhar ou admirar algum corpo feminino. Para mim somente Deus bastava! Mas agora percebo o engano... Nunca mais consegui esquecer os longos cabelos negros e os olhos azuis de Yara! Ela é o meu ponto fraco agora e o Diabo sabe. Enquanto desejava a sereia, Satã enviou para destruir o meu sonho uma sucubus (demônio fêmea). Ela tinha uma enorme boca no ventre como os tupinambás, porém dentes mais afiados! Seus olhos negros como a escuridão e seus dois cornos pontudos me assustavam! Um calor e cheiro de enxofre subiram no ar e substituiu o perfume da sereia. O demônio fêmea sustentava uma espada maior do que qualquer guerreiro! Era flamejante e como a cor da pele do monstro era vermelho sangue. A sucubus tocou em meu órgão fálico. Era uma cena repulsiva. Ela aproximou sua face deformada perto da minha e de escárnio lambeu o meu rosto. Maldito cão do inferno por que não me deixa em paz? Em resposta a fera soltou uma gargalhada. Acordei assustado e com o jorro da vida sobre o meu ventre. Tive asco de mim e fui me lavar no rio. Depois disto nunca mais consegui dormir como antes.


Após este relato do monsenhor Aquiles, percebi que mesmo o homem mais reto, ainda pode ser vitimado pela ação do demônio. Lembrei-me das Tentações de Santo Antão e de como o mártir sofreu para alcançar o Céu.

Helio Medeiros terminou a leitura e com cansaço na fala parou. Por um instante o silêncio tomou conta do recinto. A balburdia depois começou entre os ouvintes da palestra e aos poucos Helio foi percebendo que sua tese realmente chamava a atenção. Vendo a oportunidade para conversar com a platéia falou:
-         Podemos até aqui promover um pequeno debate. Alguém tem uma pergunta para fazer?
Aos poucos varias mãos levantaram em meio à platéia. Um garoto de óculos grande e magro com um suéter vermelho pegou um microfone que circulava pelo recinto e perguntou:
-         O que o senhor pode nos dizer sobre os exorcismos praticados pelos monges?
Helio impostou a voz e respondeu:
-         Acredito que o relato de Francisco seja o caso mais comum de ato violento dos colonizadores. No inicio eles são afáveis com os nativos, mas depois quando não são atendidos passam a destratar e destruir as tribos que possuem resistência as suas intervenções.
Uma outra mão levantou, desta vez de uma jovem de vinte e poucos anos. De cabelos morenos ela pegou o microfone do rapaz que havia feito a pergunta anterior e fez seu questionamento:
-         O que o senhor acha que seja ‘a rainha das águas’? Seria um ato de sincretismo?
Helio gostou da pergunta e se exaltou em responder:
-         Com certeza, o relato de Aquiles e o seu encontro com a rainha das águas seria uma contextualização de um fato de modo poético. Podemos perceber que Aquiles teve um encontro com a crença de outros deuses que os índios acreditavam. Por coincidência a divindade Yara se parecia com a Virgem, o que permitiu que os índios aceitassem a nova crença pacificamente. Em contrapartida temos que ter em mente que foram os índios que fizeram a assimilação entre divindades e não o colonizador. De fato o sincretismo religioso aqui não o foi forçado.
Depois desta explicação Helio Medeiros pegou outros documentos e sinalizou para o publico que voltaria a leitura.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Escrevendo um romance VII: 7ª Parte

CAVALEIROS E EXORCISTAS

©2011 Paulo Af.
Esta obra é uma ficção, não tem dados históricos oficiais reais e todos os personagens são fictícios, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


O FANTÁSTICO ENCONTRO COM A RAINHA DAS AGUAS

Descansávamos depois de todas as batalhas travadas quando Buldica e Diana vieram à aldeia guarani. Como não nos víamos há muito tempo, ela estranhou que estivéssemos com barbas grandes e cabelos desgrenhados. Quando olhei para Diana, por alguma razão, o meu coração bateu mais forte e um frio na barriga surgiu.
Ela continuava muito bela, tão bela quanto uma estátua de Vênus. Queria poder travar um diálogo com ela, mas a nativa queria mesmo era falar com o monsenhor Aquiles. Com tom de raiva ela desaprovou nossa empreitada sobre as aldeias que foram expurgadas.
Diana dizia que estava triste em saber que éramos iguais a Atila e seus soldados cruéis! Não entendíamos, pois queríamos apenas salvar as almas de criaturas tão sofridas pelo mal. Buldica disse que rezou para o nosso Deus, para que não fizéssemos tais ações! Ela não entende que é por Ele que fazemos tudo isto!
Aquiles disse para ela se acalmar e ver o que tínhamos feitos aos guaranis: mostrou a igreja que foi edificada com seu esplendor e glória, também mostrou a grande plantação que cultivávamos em uma área enorme com a técnica da charrua, fizemos um moinho para reter a água do riacho e assim, utilizá-lo melhor. Enfim, fizemos da aldeia uma verdadeira vila!
Diana olhou a tudo espantada. Ficou em silêncio e depois disse:
-         Tu tens que vir comigo! Temos que falar com Yara, agora!
O nome Yara fez Aquiles ficar eufórico, pois os índios passavam oras falando sobre ela. Teria essa tal ‘rainha das águas’ tanta autoridade assim? Aquiles aceitou a proposta e junto com Diana foram em direção as cascatas que ficavam abaixo da aldeia. Chegando lá, Aquiles sentiu um frescor e um frio que encharcava o seu manto. Praticamente molhados os dois ficaram na margem do rio.
Diana trouxe um pouco de ervas e se ajoelhando diante de uma pedra jogou-as no rio. Ficou de olhos fechados e em silêncio esperou algo acontecer! Aquiles ficou paciente e não quis atrapalhar o ritual da nativa, apesar de achar tudo uma asneira.
De repente ondulações começaram a surgir na superfície do rio. A água foi ficando cristalina até brilhar e ofuscar os olhos de Aquiles. Ele sentiu um pavor diante da mágica da amazona e desejou sair dali, mas as suas pernas não se mexiam, pareciam raízes fixas no solo.
Petrificado de medo então, ele viu algo inacreditável: uma cauda de peixe apareceu no rio e depois mergulhou na água. Em seguida algo começou a sair de lá! Em meio uma estranha neblina que tomou conta do lugar Aquiles viu um torso de mulher aparecer. Ela tinha olhos azuis e na cabeça sustentava uma coroa sobre a cabeleira longa e escura. Os seus seios eram cobertos por conchas e seus lábios eram carnudos e sua tez rosada.

A mulher foi saindo do rio em direção a uma pedra. Quanto espanto maior teve Aquiles em ver que a parte debaixo do corpo da mulher era de peixe! Nem Homero com sua ilíada seria capaz de descrever tal criatura: uma mistura de beleza com grotesco, que levaria qualquer um a ter sensações contrarias de amor e horror!
A sereia chamou através de um assobio como uma flauta tocando uma melodia delicada o nome de Aquiles. Ele como se estivesse em transe entrou na água com roupa e tudo mais que carregava e nadou até onde estava a criatura.
Quando chegou bem perto da sereia quis toca-la. A sereia afastou o corpo com medo e em seguida resolveu tocar o rosto de monsenhor Aquiles. O toque dela parecia ter despertado nele um sentimento há muito adormecido.
Aquiles saiu da água e prontamente se sentou próximo da criatura. Os dois se olharam como seja conhecessem. Aquiles parecia sentir o que um monge deve repelir: o desenho de romper o celibato.
Yara então para por fim ao silêncio entre ambos iniciou a conversa:
-         Aquiles, tu és um homem bom e sensato, contudo está levando a fé em seu deus para um caminho espinhoso. Olhe e veja o sofrimento que trouxe aos meus súditos!
Aquiles parecia não ter o que dizer, depois retrucou:
-         Estou fazendo o que é o certo! Estou levando a paz aos aflitos e livrando o mundo do mal.
A mulher peixe ficou com um semblante de tristeza e então replicou:
-         Que paz é esta!? Tirou a vida de muitos dos que viviam aqui nesta mata. Destruiu povos em nome do seu deus! Que bondade trouxe com o fio da sua espada? Conheci o seu irmão Atila e ele também pensava como vós. Dizia trazer a paz e a esperança. Porém, não precisávamos de sua paz e nem de tua esperança já que não estávamos aflitos e nem desesperançados.  Contudo, Atila pensava diferente e agiu com raiva sobre o meu povo.
Aquiles ouviu estas palavras e franzindo a testa, depois serrando os dentes e com expressão de fúria replicou:
-         Como podes querer me comparar com tal serpente!? Ele traiu a Deus e eu não! Ele não viu que aqui é o Éden bíblico, que precisa ser preservado do Maligno.
A sereia percebeu que as idéias de Aquiles não iriam mudar. Então, saltou para o rio deixando o monsenhor sozinho sentado na pedra. O monge mestre sentiu um pesar e lembrou dos olhos azuis que contemplara. Desejou que eles voltassem e sem pensar nas palavras gritou:
-         Volte Yara! Volte para meu lado! Eu estou sentindo algo que não deveria por ti. Um fogo acendeu em meu coração e preciso apaga-lo...Volte para mim!
Vendo que a sereia não ouviria os seus clamores, Aquiles voltou para a água e nadou de volta para a margem do rio para encontrar Diana. Quando saiu da água estava cabisbaixo e voltou com passos pesarosos para a aldeia.

No caminho Diana tentava convence-lo a deixar a tribo guarani e conseqüentemente deixar também a ilha. Aquiles, contudo, estava surdo as suas palavras com a mente voltada para a lembrança dos olhos azuis de Yara. Quando voltaram para a aldeia Aquiles me relatou tudo isto.
Tive pena dele e ao mesmo tempo entendia os seus sentimentos, pois eu estava tendo os mesmos em relação à Diana. Depois de um tempo as guerreiras deixaram a aldeia guarani prometendo voltar brevemente e ver que decisão tomaríamos para por fim ao sofrimento, que segundo elas estávamos trazendo ao povo.