domingo, 12 de junho de 2011

Monografia de pós-graduação: Parte V

As visões do Inferno e o temor do castigo divino fizeram que tanto o camponês iletrado quanto o rei ou o sacerdote, tomassem medidas rígidas sobre suas ações. As penitencias em relação ao sexo e a avareza parecia serem as principais causas da descida do homem para o fogo ‘eterno’. Por isto a força visual da descrição do Inferno de Dante, que para os seus contemporâneos poderiam ser reais e os trabalhos de Bosch como a própria já citada Tavola dos Sete Pecados com o olho inquisidor de Deus no centro enquanto Jesus Cristo se mostra fora do sepulcro e vertendo sangue da costela perfurada pelo centurião romano durante a crucificação.
 Ao redor do olho divino os sete pecados detalhadamente pintados mostrando no dia a dia da comunidade: homens irados lutando, mulheres vaidosas diante do espelho, gulosos que comem vorazmente, casais que se deleitam no campo enquanto bobos da corte animam o que seria um principio de bacanal, dorminhocos enquanto o tempo passa, homens que se apegam às riquezas e deixam outros com penas duríssimas. O olho de Deus vê tudo e Bosch não deixa por menos em sua forma de narrar eventos quase simultâneos ao redor dos sete pecados a morte e o flagelo no Inferno, enquanto Jesus e seus anjos acolhem os que seguiram o caminho da retidão na porta do Paraíso. No fim, Jesus triunfa com sua milícia celestial de Serafim e acompanhado dos apóstolos e santos. Não deixa de lembrar o Canto XXXII de Dante.
Voltando ao poema dantesco que fala da Igreja e suas falhas por meio da metáfora da meretriz, o gigante e a águia. Dante seria para muitos historiadores um saudosista deste período em que a fé católica dominava a arte. De certa forma nestes períodos (mas especificamente no século XII e XIII) na chamada Alta Idade Média, o poder da Igreja mascarava a face imperfeita dela. A teologia católica era o único saber e toda as outras formas de pensamento eram vistas como heréticas, dignas de castigos severos. Tudo para expurgar o ‘demônio’ que havia levado o indivíduo a duvidar ou pensar além dos dogmas defendidos pelo clero. Se Dante sintetiza a mentalidade medieval: a visão sobrenatural do universo, o simbolismo, o belicismo, o contratualismo e a hierofania. Toda a forma expressiva de arte da Idade Média não deixará de fazê-lo, com bem atesta Bosch em suas pinturas. 

2.2- Dante o poeta do imagético

            Em muito de seus livros Dante está identificado com seu manto vermelho e uma coroa de louros, aliás, a coroa de louros identifica como foi dito os que desejam a fama e a glória, no caso de Dante a glória é estar entre os grandes poetas clássicos. Mas, Dante é antes de tudo um enigma de seu tempo. Como definiu William Manchester, Dante seria um vanguardista em sua época junto com outras personalidades que de certa forma abriram as portas para a Renascença:

É impossível fixar uma data para o início do Renascimento, mas a maioria dos estudiosos acredita que suas primeiras manifestações começaram a aparecer no início do século XV. Embora Dante, Petrarca, Boccaccio, São Francisco de Assis e o pintor Giotto de Bondone-todos os quais parecem ter sido impregnados com o novo espírito - já estivessem mortos, são vistos como pioneiros desse novo despertar (MANCHESTER, p. 53, 2004).

Logicamente, que nem todos os historiadores compartilham desta opinião. Mesmo que sua ‘Divina Comedia fosse uma obra multifacetada, para Hilário Franco Júnior, Dante não deixaria de ser um representante conservador de seu tempo ao defender ideais medievais como os princípios católicos:

 (...) a obra de Dante Alighieri, escrita entre 1307 e 1321mas de espírito pertencente ao século XIII é, talvez o maior painel existente sobre a Idade Média. A viagem que nele Dante empreende pelo Inferno, Purgatório e Paraíso é o pretexto para encontrar inúmeros personagens (políticos, burgueses, filósofos, poetas, santos, teólogos) e a partir deles tecer comentários sobre praticamente tudo. Assim o poeta reuniu profundos conhecimentos do saber oficial de sua época com elementos tirados da tradição populares. Aliás, sua intenção divulgadora transparece, quando afirma ter escrito a Commedia em ‘linguagem vulgar que as mulheres utilizam em suas conversações diárias’ para ser entendido por maior numero de pessoas. Era o grande manifesto da laicização da cultura (FRANCO JÚNIOR p. 1986, p. 140).
Se Dante parecia evocar o cristianismo, não era o da sua época, e sim aquele cristianismo que havia fundado a Igreja e essa por suas atitudes controversas teria sido esquecido por ela. O poeta florentino para muitos parece mais laico que católico. Em sua obra tudo coube: o islamismo, a filosofia grega, a teologia católica, o romance; tudo ocupava a sua obra. Exilado de Florença o ex-priore que defendia os guelfos contra os gibelinos (facções que lutavam pelo poder da cidade ora defendendo ora atacando o clero2), escreve a partir da percepção que tem do mundo a sua volta, como bem coloca Buckhardt: “Se tomarmos Dante e seus contemporâneos como evidência, descobriremos que a filosofia antiga entrou em contato primeiramente com a vida italiana no aspecto em que ela oferecia o contraste mais marcante com o cristianismo e epicurismo”.(BUCKHARDT, 1991, p. 306).


2              Clero: conjunto de sacerdotes responsáveis por um culto religioso. Existe o clero regular e o secular. Também conhecido como alto clero (papa, bispos e arcebispos) e baixo clero (diáconos e monges).2


Iria para nenhum Paraíso ou qualquer lugar celeste, ela morreria unto com o corpo. Algo que Dante um católico abnegado à teologia de Tomás de Aquino rejeitava veementemente
 O não pensamento de Epicuro (ac. 341-270 ac) residia na idéia que alma humana. O contato entre o cristão e a filosofia grega, gerava um conflito existencial, ao mesmo tempo em que uma abertura para novas possibilidades de raciocínios que fugiam do controle da teologia.
Se a obra de Dante tem uma faceta conservadora (ele impregna sua ida ao Inferno e o Paraíso com uma visão teológica de São Tomás de Aquino a ponto de encontrar com o próprio no Quarto Céu celestial) a sua outra faceta seria como já foi registrado anteriormente é sua crítica severa a uma Igreja que usa da simonia e da venda de Indulgências como mantenedora de um poder que a distancia do propósito cristão. Mas além disto, talvez a maior contribuição de Dante tenha sido sua transparência em mostrar que sua poesia era totalmente calcada na cultura grega.
A obra Eneida de Virgílio sofre uma releitura por parte de Dante ao se colocar como protagonista da historia no lugar do troiano Enéas que é expulso de sua terra após a tomada de Tróia pelos espartanos. A história de Enéas é narrada por Virgílio da seguinte maneira: durante a fuga seu pai Anquises morre sem relatar que profetizara que seu filho seria o fundador de uma nação próspera (tudo indica que seria a Itália). Assim como Ulisses, Enéas viaja por todas as regiões próximas do que se tornaria a Itália, como a Trácia, a ilha de Delos, Istrofades e o litoral da Sicília. Chegando em Cartago conheceria Dido, irmã de Pigmaleão e rainha daquela nação. Ela seria sua grande paixão, pois, Enéas perdera sua esposa durante a fuga de Tróia. Como era condenado a ser um errante pelos deuses, Enéas acaba deixando Cartago abandonando Dido. Esta por amor fica em desgosto e morre. Preocupado em saber da profecia de seu pai, Enéas ruma para a costa da Itália para encontrar a Sibila, sacerdotisa que deveria levá-lo para o Tártaro para assim Enéas poder ouvir a profecia da boca de seu próprio pai Anquises.
O Tártaro era a região dominada pelo deus Plutão (Hades), formado pelo rio Aqueronte (rio de água escura e putrefata), o rio Estige (rio dos vapores nauseantes), rio Flegeton (o rio de fogo) e o campo das lagrimas e o Elíseos.  Para poder atravessar toda a região e não ser atacado pelas Fúrias e nem o cão Cérbero, Enéas e Sibila viajam no barco de Caronte. Após ultrapassar as muralhas da cidade infernal chamada de Dite, Enéas finalmente encontra o pai e sua amada Dido no campo Elíseos. Descobre que seu destino é guiar uma grande nação e sendo assim não pode ficar com os seus no Inferno, ainda mais que ele não havia morrido. (continua)
           


   

sábado, 11 de junho de 2011

Igrejas Medievais: as várias formas da casa de Deus

Após 249 anos de perseguição impostas pelos imperadores romanos, o cristianismo deixou de ser uma reunião de fanáticos religiosos e passou a ser a religião principal, graças a conversão de Constantino no seculo V.

O surgimento de Constantinopla do lado oriental da Europa, seria uma divisão profunda posteriormante para os cristãos gerando as igrejas romanas do ocidente e do oriente. Constantinopla seria invadida pelos turcos e estes continuariam com o cristianismo, porém avesso aos mandos de Roma. O próprio cristianismo como base religiosa gerou inumeras interpretações devida a generalização e universalização da mensagem do Cristo.
    
Tão universal quanto a mensagem do Cristo seria a estetica adotada pelas igrejas para expandir o messianismo. As primeiras igrejas cristãs eram inspiradas nas catacumbas romanas: simples e com poucos desenhos nas paredes feitos por artistas anônimos. Depois que os romanos adotaram a religião dos perseguidos as igrejas passaram a adotar a estética romana: templos com colunas e arcos. Muitos destes templos se pareceram com as basilicas (predios administrativos romanos) e com o famoso Panteão onde no lugar dos deuses gregos eram colocados apostolos, anjos e santos cristãos.
    
As igrejas chamadas de românicas tinham uma estética de muitos desenhos e imagens do Cristo Pantacrator. As janelas eram pequenas o que prejudicava a iluminação do recinto. Antes dela houve a igreja bizantina com os seus ícones estilizados e que inspiravam as iluminuras. Um detalhe interessante que vale ressaltar é que os personagens descritos nas paredes não tinham a imagem da beleza grega como regra, já que a Igreja presava mais a mensagem que a forma. Assim tinhamos um Cristo gigantesco e anjos pequenos e magros ao seu redor pintados de azul, amarelo ouro e vermelho.
    
no seculo XII apareceriam as igrejas góticas, com seus demônios de pedras em seus parapeitos e colunas de nervuras e torres altissimas. Esta estetica arquitetônica apareceu no Sul da França e se alimentava das supertições pagãs (por isto as colunas e paredes eram decoradas com folhagens e criaturas horriveis). O que mais chamava atenção nestas igrejas eram realmente os vitrais coloridos que quando ganhavam os banhos de raio de sol iluminavam o recinto de foma sublime.
      
Enfim, ao termino do século XIII e inicio do XIV surgem as igrejas renascentistas. A mais conhecida delas foi construida pelo arquiteto e pintor Bruenelesch, chamada de Santa Maria del Fiore. Como o próprio nome diz a Renascença foi a volta do pensamento greco-romano em termos estéticos e comportamentais. Pintores como Michelangelo e Leonardo da Vinci pintavam figuras religiosas inspirados nos corpos das estatuas gregas vistas como pefeitas, enquanto as igrejas tinham suas enormes cúpulas que abraçavam o  céu.Claro, depois veriamos a pompa e o exagero das igrejas barrocas pós Reforma Protestante. Hoje as igrejas pós moderninsmo são bastante modestas e até pobres (algumas delas) de estética seja pelo advento do protestantismo ou das varias releituras da mensagem cristã que buscam  mais arrebanhar fiéis sem usar o artificio da arte de outrora.

sábado, 4 de junho de 2011

Sessão Espada & Fantasia

O início do novo milênio foi um marco para quem curte as histórias de guerreiros e magias. Me lembro que 1999 coroava o fim de uma era em que a internet era o maior avanço tecnológico e social que haviamos chegado. Filmes como Hackers e Matrix contavam o épico do homem moderno que estava conectado e escravizado pelas máquinas. Aliás, o tema do homem X máquina já era debulhado desde os anos 80 com o Exterminador do Futuro de James Cameron.

Em contra partida as histórias de cavalarias e guerreiros empunhando espadas estava em decadência e de vez em quando um filme como Coração Valente ou Gladiador chamavam a atenção do publico que tinha saudade de filmes de capa e espada. Pois bem, em pleno anos 2000 surge o avassalador Senhor dos Anéis de Peter Jackson. O filme de 3 horas de duração era apenas a introdução de um épico que ganharia seu alge com o Retorno do Rei.

Que alegria eu tive em ir ao cinema e ver a obra de J. R. R. Tokien ganhando vida com os efeitos especiais nunca vistos antes. O mais curioso foi ver como a obra de Tokien havia influenciado todo um gênero de intretenimento. Quem assistia os episódios do desenho Caverna do Dragão, He-man e Thunder Cats percebia os ecos de Tokien neles.
Vou mais longe e trago de minha memoria os filmes de monstros mitologicos feitos por Harryhausen que tinham um 'quê' de Senhor dos Anéis neles. O estranho é perceber que a molecada de hoje que está lendo Tokien nem sabe da influencia dele na grande midia. Filmes como A Lenda de Ridley Scott ( o mesmo que dirigiria mais tarde o Gladiador) e O Dragão e o Feiticeiro em pleno anos 80 já faziam referência ao gênero espada e Fantasia, fora talvez, o melhor filme deste genero: Conan O Barbaro!

Recentimente assisti a animação O Senhor dos Anéis (1978) dirigido pelo animador Ralph Bakshi. O cara é tão aficcionado pelo gênero espada e magia que faria um desenho super bacana chamado de Fire An Ice(1983). Com qualidade digna de um anime japonês Ralph Bakshi é conhecido por fazer desenhos super adultos e eletrizantes. Outro que foi Influenciado por Tokien foi Jules Bass, animador também, americano como Bakshi e socio de Arthur Rankins. Os dois fariam os desenhos animados dos Thunder Cats e outras animações de sucesso dos anos 80. Eles produziram um desenho super bacana chamado de O Ultimo Unicornio (1982). Outro fã de Tokien foi Ivan Reitman que produziu um super desenho para o cinema chamado Heavy Metal (1981) na qual uma das historias era a cara das obras de Tokien chamada de Taarna. O ultimo desenho gênero espada e fantasia que saiu foi Dante's Inferno feito pelos animadores japoneses para divulgar um jogo do mesmo nome para XBOX 360.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Máscaras da ilusões: as nossas muitas faces


O homem sempre procurou explicar o que ele considera inexplicável ou sem sentido. Os homens das cavernas acreditavam que desenhando bisões nas paredes das cavernas estariam facilitando a caçada a fera. Os raios que caiam e derrubavam as árvores eram considerados a fúria da divindade sobre os homens. O mesmo acontecia com as tempestades e terremotos.

Foi o medo pela fúria da divindade e talvez o desejo de manipular tal poder que surgiram os rituais religiososo. Os homens primitivos passaram a elaborar formulas e imolações para falar com o sobre-natural e terem uma fusão com ele. Nas tribos africanas e indigenas é comum o uso de suportes como cajados e poções, mas principalmente de máscaras e pinturas corporais.
Em particular as máscaras geram um fascínio em especial por não terem uma função imediata como um pote ou uma lança. Assim como as estátuas a sua função é tão subjetiva que chega a ser ignorada. Podemos viver sem usar uma máscara ou contemplar uma estátua, porém , existe uma razão para construirmos tais coisas.
Para as tribos primitivas as máscaras servem como um meio de conexão, um 'telefone celular', para falar com a divindade. Somente o shaman pode usar esta máscara pois ele domina o codigo  especifico para se comunicar com a divindade. Aliás, qualquer coisa que proteja a cabeça, o orgão que rege nossas ações, tem um valor mais que especial.

Os guerreiros astecas usavam as cabeças de jaguar como elmo, assim absorvem o poder do animal para matar os inimigos. Os elmos dos guerreiros gregos eram 'batizados' nos templos em nome de Apolo e assim esperavam que o demonos 'espirito de heroí' viesse sobre suas cabeças. No mundo atual falamos muito em pessoas 'mascaradas' ou de 'duas caras', porque na nossa sociedade precisamos infelizmente termos mais de uma face para viver em um mundo onde julgar o outro é quase um esporte.


Talvez seja por isto que as máscaras de Halloween e de Carnaval façam tantos sucessos pois revelam o que escondemos no nosso cotidiano. Quem nunca aprontou no Carnaval ou no Halloween porque estava mascarado e assim achava que não seria reconhecido?

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Trabalho de monografia Parte IV: continuação

1.4- Poder estabelecido

Parece complicado entender como a Igreja se tornou poderosa ideologicamente, quando vemos as guerras dos Macabeus e a perseguição romana a Baco. A Igreja herdou estes fatos e os levou a adiante. A Europa dividida entre a cultura românica e a germânica era invadida por hunos e bárbaros orientais. Quando o Cristianismo se ascendeu com a decadência do Império Romano, seus representantes passaram a defender a unificação do continente europeu através do rei franco Carlos Magno. Como instituição que tinha reis convertidos na suas fileiras de fieis, e assim podia justificar como única religião representante de Deus na Terra, a Igreja literalmente abraçou a unificação do território europeu. O continente europeu estava dividido entre os antigos descendentes de um Império Romano decadente e as tribos germânicas. Ambos eram atacados pelos hunos e outros bárbaros orientais. Mesmo com várias tribos vivendo com dialetos próprios e variáveis culturais o cristianismo investiu em uma unificação, por vezes forçada e com intuito ideológicos de dominação que levou a uma efêmera coalizão entre o mundo dito clerical (o mundo dominado e justificado pela Igreja) e o mundo laico (o mundo dos povos germânicos divididos em tribos como os saxões e os celtas) com a chancela de Carlos Magno como atesta Franco Júnior:

Foi então que se atingiu, ilusoriamente, uma nova unidade política com Carlos Magno, mas sem se interromper as fortes e profundas tendências centrifugas que levariam posteriormente à fragmentação feudal. Contudo, para se alcançar essa efêmera unidade, a dinastia carolíngia precisou ser legitimada pela Igreja, que além do seu poder sagrado se via como única e verdadeira herdeira do Império Romano. Em contrapartida, os soberanos carolíngios entregaram um vasto bloco territorial italiano à Igreja, que então se corporificava e ganhava condições de se tornar uma potência política atuante.(JUNIOR, 1986, p. 13).

Com o tempo como já foi relatado, a Igreja para poder se impor ideologicamente demonizou as crenças das tribos convertidas germânicas. Para isto, construiu templos católicos em locais sagrados pertencente à sociedade laica e convertia deuses em demônios e transformava outros em santos cristãos. Os laicos (a sociedade cristianizada, mas que não tinha contato com a filosofia e nem com o intelectualismo greco-romano) divinizavam os elementos naturais e via o contruatualismo como uma relação íntima e direta com o sobrenatural sem precisar de intermédio de mestre espiritual. Ironicamente com medo de perder fieis a Igreja permitiria o contratualismo entre o crente e o santo de devoção, uma substituição aos antigos rituais pagãos de sacrifício de animais ou invocação de forças.

O camponês humilde longe das cidades ainda temia a natureza e a escuridão, cabia a Igreja alertá-lo dos demônios e quimeras, que o próprio camponês carregava desde suas crenças ancestrais. Isto era o imaginário popular, um conjunto de imagens construídas pela sociedade. O imaginário com a junção da mentalidade que Le Goff definiria como uma unidade individual que transitava para o coletivo. Aquilo que todos os indivíduos de um grupo tinham em comum e que se manifestava mesmo que inconscientemente. O imaginário e a mentalidade (ideia e instrumentos culturais que os legitimam) gerariam todas as imagens que aparecem nas gárgulas das catedrais, na crença em lobisomens e vampiros e claro, em demônios que apossavam da alma dos que não seguiam os dogmas da Igreja.
Esta junção da visão da Igreja a crenças que lhe seriam dispares surgiu lentamente, ainda quando cristãos ganhavam notoriedade em Roma e assim ‘engoliram’ a arte clássica pagã, como percebe Panofsky em seu ‘Significado das Artes Visuais: “(...) a figura de Orfeu foi empregada para representar Davi ou quando o tipo de Hércules puxando Cérbero para fora do Hades foi usado para retratar Cristo tirando Adão do Limbo”.(PANOFSKY, p. 68, 2004). Logicamente, que existe os fatores composicionais e de texto para se entender este entremeio do clássico e o não-clássico. Os monges copistas dono do saber mitológico greco-romano tinham acesso à palavra, já que o monge que deveria confeccionar a imagem tinha o texto como referência e torná-lo contemporâneo para os seus. Para isto, traduziam em imagens textos que não eram descritivos. Assim sendo um personagem greco-romano poderia receber uma roupagem medieval. Pois, o conteúdo da mensagem era mais importante do que a sua forma. Os monges artistas usavam as obras romanas (formelas e esculturas) como base composicional procurando não exaltar os detalhes do corpo (a alma era o bem precioso e o corpo era corrupto). Por isto, a estilização das figuras e o pouco cuidado no retrato se desligando do naturalismo da arte grega e romana.



CAPITULO II

DANTE E BOSCH

2.1-Representantes do belicismo

No Paraíso da sua Divina Comedia, Dante Alighieri (1265-1321) explanou sobre o geocentrismo defendido por Tomás de Aquino, usando a sua musa Beatriz como símbolo da fé e do conhecimento teológico. No Paraíso todo o conhecimento astronômico da Idade Média se mescla à filosofia teológica e assim procura explicar elementos tidos como não humanos como os níveis de planeta e sua relação com as moradas celestiais: “Na oitava esfera luzem muitos lumes, os quais se distinguem entre si pelo seu vulto e pela qualidade da luz que emitem. Se a tenuidade ou a densidade deste corpo desse causa às sombras e às luzes, decerto todas teriam virtudes iguais similares e todas seriam iguais”.(DANTE, canto II, p. 236).
Neste mesmo canto, Dante além demonstrar por meio das explicações de Beatriz, sobre como o Paraíso tem existência, demonstra também que nenhum conhecimento humano poderia alcançar o saber divino e toda a explicação do homem para entender o mundo seria sinal de ignorância sobre este saber. Um tipo de conhecimento que platonicamente falando seria somente de alcance dos sábios que podem desafiar sair da caverna ou na teologia cristã de Tomás e Dante, ir além do mundo matérico.
Ainda na Divina Comedia no canto XVI no poema sobre o purgatório dos pecadores da ira, Dante discute o livre-arbítrio e resume todo o pensamento tomista sobre Deus como motor do universo e percebe que tudo gira em torno do divino:

Vós, os viventes, costumais atribuir ao Céu as causas de todos os efeitos, ligando, por necessária dependência que a todo o mundo rege, o bem e o mal. Se assim realmente acontecesse, destruído o livre-arbítrio, não receberia o homem o prêmio justo e o castigo merecido. De fato, os vossos movimentos são iniciados com a permissão divina. Não digo todos; mas admitindo que assim ocorra com todos; ainda tendes a luz da razão que vos permite discernir entre o bem e o mal. (DANTE, canto XVI, p. 168).

O livre-arbítrio discutido na obra de Dante ganha dimensões gigantes nas pinturas do pintor holandês Hieronymus Bosch (1450-1516). Artista dos Países Baixo, Bosch tinha uma visão totalmente negativa e por que não dizer não tomista. Pois, se Tomás de Aquino considera que o homem ainda tem uma escolha mesmo que Deus ainda seja o impulsionador das ações humanas. Bosch percebe que toda a ação do homem é contraditória a Deus. Em obras como a Carroça de Feno (provavelmente séc. XVI) e Távola dos Sete Pecados (c.1490) (figura 01), Bosch expressa em pinceladas um Deus que está distante do homem enquanto este se entrega voluntariamente ao pecado, deixando o motor divino que guia para trás. O homem é responsável pelas suas escolhas e a ação de Deus é punitiva. Tanto que as pinturas finais dos seus tripticos sempre terminam com o castigo humano no Inferno.
No canto que encerra sua viagem pelo Purgatório, Dante descreve alegoricamente a Igreja como representante de Deus na Terra. De certa forma ele parafraseia o profeta Ezequiel, que em sua visão vê o carro divino protegido por seus querubins. Dante coloca o carro divino de Ezequiel como a própria Igreja que é guiada por Cristo (metaforicamente no poema um grifo) e junto destes seguida pela comitiva de apóstolos e anciãos sábios da Bíblia. Contudo, o carro de Deus no poema de Dante é perseguido e atacado por uma águia e uma raposa enquanto uma meretriz ao longe se enamora com um gigante.
Como se trata de elementos alegóricos, a raposa a meretriz o gigante e a águia, significam os flagelos da Igreja: a águia as perseguições, a raposa a heresia, a meretriz, a cúria romana que deseja poder e o gigante seria o Rei Felipe o Belo, que para Dante representaria a França, inimiga da igreja italiana.
Se o Canto XXXII de Dante percebe as contradições e fragilidades da Igreja: “Ereta, qual rocha saliente em alto monte, sentada sobre o carro vi então nua meretriz, os lascivos girando à volta. Como pretendente tê-la para si unicamente, à sua retaguarda postava-se um gigante, e os seguidamente se beijavam”.(DANTE, Canto XXXII, p.222), a historia registra que concretamente os seus desatinos, como bem atesta Jacques Le Goff (2008) ao afirmar que a Cruzada é mais que uma guerra santa, na qual a justificativa da guerra é feita em prol de um bem maior, mas que a guerra deflagrada pela Igreja é uma guerra declarada por Deus contra os que não o seguem segundo o ponto de vista dos cristãos fervorosos da época.(continua)

domingo, 29 de maio de 2011

Plastimodelismo: esculturas de papel


Quando eu era menino adorava as action figures. Aqueles bonecos de plásticos de super-herois e que muitas vezes eram alvo de preconceito por parte de muitos pais. Os meus, por exemplo, achavam que 'esse negocio de boneco' era algo afeminado. Que somente as meninas podiam ter estas coisas e que 'homem que é homem' brinca de carrinho ou bola de futebol.
Cresci meio frustrado com isto. Meus amigos de rua e de escolas tinham os bonecos do He-Man, dos ThunderCats, Rambo e Comandos em Ação. Para aplacar a frustração eu confeccionava os meus proprios brinquedos: pegava vasilhames de desodorante e outras coisas velhas e fazia meus bonecos de herois. Cheguei a fazer tantos brinquedos que minha mãe achava que eu estava guardando lixo no quarto. Ironicamente ela sempre achou a ideia de fazer brinquedos criativas e apoiava as minhas criações. Eu tinha o Jaspion, o Pirata do Espaço, naves espaciais... Tudo feito por mim.
Depois, meus pais me deram bonecos do Playmobil e até uns bonecos do Transformers mas aí, já era, eu estava tão fascinado pelas minhas proprias criações que os bonecos que passavam na tv não me animavam mais.


Ultimamente graças a um amigo do trabalho eu estou no ramo da plastimodelismo. Para quem não conhece o termo é sobre a arte de fazer miniaturas de objetos reais como castelos, carros, aviões... Existem vários sites e blogs onde podemos conhecer fãs desta arte muitas vezes marginalizada.
Ontem eu construí um cavaleiro medieval, todo em papel, levei umas quatro horas para faze-lo. O plastimodelismo parece dificil no inicio pois, as vezes o objeto construido requer muitas peças e que são muito pequenas. 
   
Como requer uma paciência do praticante, algumas pessoas desistem de montar devido o cuidado das peças. Porém, não tem nada mais motivador depois que você vêr a sua obra constuida. É por isto, que estou levando o plastimodelismo para a escola. Uma turma do fundamental da EJA trabalhou e gostou, agora vou continuar a ideia e ver o que eles podem fazer!

terça-feira, 24 de maio de 2011

Expressionismo, Simbolismo e Surrealismo: medo e fetiche

Alguns movimentos artisticos conseguem chamar atenção mais que outros por alguns motivos na história. Uns são 'bancados' por autoridades clericais ou burguesas, outros por mecenas. No fim, a relação poder financeiro e ideologia de uma classe dominante transparece em muitos trabalhos artisticos.

Porém, existem aqueles casos, ou anomalias do mundo da arte que fogem ao controle das classes poderosas. Um exemplo da qual citei em um artigo anterior foi o Realismo. Aliás, depois do fim do século XVIII muitos artistas tentaram 'sair da saia' do clero e dos reis e imperadores. Esta busca por independência na maioria das vezes irá gerar um conflito. Teremos artistas incompreeendidos e que não gozarão do estatus que mestres como Leonardo Da Vinci, Michelangelo e Dürer tiveram em vida.

O exemplo clássico é do Van Gogh. Quando se quer fazer uma crítica negativa ao mundo das artes ele é sempre citado. A não valorização em vida de seu talento criou imagem de que todo artista irá morrer pobre e falido. Logicamente, se examinarmos com mais afinco a história da arte iremos encontrar em quase mesma proporção artistas que consiguiram exito ao lado de fracassos.
Mas o que o expressionismo, o Simbolismo e o Surrealismo tem com isso? As vanguardas européias, foram a forma mais transparente que o artista encontrou para dizer que não queria ter seu trabalho sufocado pelos mandos de um mecena. Nã á toa irá surgir muitas exposições das chamadas artes rejeitadas ou degeneradas. Estas obras na maioria das vezes não tinham o mundo greco-romano como influiencia e quando tinham eram para ser alvos de crítica do artista. Esta crítica ao mundo grego serve de combustivel para também criticar a sociedade como um todo: questionamentos a religião, a ciência, a familia, ao governo...
         
Os Simbolistas e os Expressionistas mostram o íntimo do ser humano nem sempre nobre ou heróico como gostavam os amantes da arte clássica. As imagens grotescas de nu ao lado de monstruosidades como Odilon Redon e Fusili mostram foram mal vistas no início e somente com o aparecimento do Expressionismo e do Surrealismo ganharam estatus de grande arte. O Expressionismo como o título sugere, é a maneira como o artista enxerga o mundo não com os olhos mas, com o sentimento que muitas vezes pode ser de medo ou repulsa. Edward Munch com o 'Grito' trouxe o medo da solidão e da loucura para o mundo das artes.

Depois do Expressionismo, o estudo do homem e sua psique serão um mundo a ser desvendado. Será o período em que a psicanalise irá surgir e  a obra de Sigmund Freud, "A Interpretação dos Sonhos", enfluenciará artistas como Salvador Dalí e Man Ray além de forma indireta Marcel Duchamp. Estamos em pleno século XX e a eclosão das duas grandes guerras quando estes movimentos apareceram.
   
O fetiche (desejo por algo ou alguem que lhe de prazer e satisfação) e a crítica a valores familiares e religiosos serão imagens recorrentes no trabalho destes artistas surreais. Por trabalharem com os conflitos internos do homem estes movimentos de vanguardas seriam duramente criticados, pois no fundo ninguem quer confrontar os seus monstros internos. Não é por acaso que a base da arte Surrealista são os sonhos e pesadelos que na verdade são depositos de nossos medos e desejos mais intimos que guardamos para nós mesmos  e que não admitimos que temos!